terça-feira, 9 de maio de 2017

A sabotagem do sentir no mundo contemporâneo

Hoje li um texto que me fez muito refletir sobre as relações atuais. Em um mundo cada vez mais automatizado, as relações já nem são mais líquidas, como profetizadas por Bauman, elas já estão gasosas de tão superficiais e indiferentes. A geração y, do desinteresse, parece estar muito mais preocupada em ser egoísta consigo mesma, que não mais se permite sentir. E não falo de se jogar em um relacionamento sério, mas deixar que as coisas simplesmente aconteçam, sem medo do novo, sem medo do incerto.

As pessoas costumam e gostam de rotular institutos como forma de se sentirem seguras naquilo, como se fosse uma válvula de escape. Explico. Há dois extremos bem demarcados: as pessoas fantasiam e moldam um tipo de relacionamento em suas cabeças e vivem à espera de alguém que sequer existe ou são aquelas anti-namoros, que não concebem a ideia de ter alguém do lado, ou melhor, refutam qualquer tipo de aproximação mais íntima.

O quadro é o seguinte: boate cheia, 02 da manhã. Típico cenário de qualquer final de semana para jovens adultos, principalmente os solteiros. Como o bom e velho patriarcado manda, o cara chega na moça e eles dão lá seus 2, 3, enfim 10 beijos noite afora. A partir daí, há duas possibilidades: ou o menino pede o celular dela ou os dois jamais se verão novamente. se a resposta for positiva, os dois podem começar a trocar mensagens e se o acaso magicamente corroborar, eles marcam um encontro. Conversa vai e vem, os dois parecem ter gostos parecidos, uma aparente sintonia vai se mostrando. Mas aquele questionamento recorrente vem à tona: será que se eu falar demais com ela, ela vai achar que eu quero namorar? será que se eu transar com ele no primeiro encontro ele não vai me valorizar mais? O joguinho do desinteresse se instala e há praticamente uma competição pra ver quem sai mais por cima da situação. O medo do outro esperar de mais ou de menos parece muito mais forte do que você simplesmente ser o que você é, sem medo do outro aprovar ou não.

Conclusão da história: os dois não mais se encontram; a conversa que era animada, esfria; aquela oportunidade de você conhecer alguém bacana, sem esperar nada além disso, vai por água abaixo, pelo simples fato das pessoas ao invés de naturalmente deixarem as coisas seguirem seu rumo, ficarem presas em suas próprias inseguranças, não arriscando ir mais a fundo e adentrar o íntimo de alguém. Assim, elas se escondem em outras pessoas igualmente superficiais que não esperam nada além de um sexo casual ruim em um sábado à noite.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Liquidez da vida

O mundo hoje clama pelo desapego emocional. Me pergunto onde essa nossa modernidade líquida vai nos levar. Cada vez mais observo nas pessoas um vazio tremendo que parece nunca ser preenchido. As relações humanas estão esvaziadas. De amor. De afeto. De carinho. Daquele abraço sincero. Do ombro amigo.

O facebook parece ser o vínculo, o elo das relações humanas. O mais triste é acharmos isso natural. Já foi-se o tempo daquelas horas a fio no telefone, das cartinhas, do telegrama e até do email! A globalização encurtou as distâncias e facilitou a comunicação, mas a que preço? O que eu vejo, atualmente, é a pressa. Pressa das próprias pessoas se comunicarem. O mundo anda tão voraz que mal temos tempo para nos encontrarmos. E quando esse encontro acontece ele é frio, sem tesão, sem vontade.

Vejo uma banalização tremenda do amor e do respeito. Não trocamos mais nossos olhares apaixonados, não andamos mais de mãos dadas, não estamos dispostos a compartilhar sonhos e problemas. Aparentemente todo o nosso foco é voltado para nós mesmos, sem olhar para o próximo. Somos cada vez mais egoístas e mesquinhos. Agora é olho por olho, dente por dente. Nossas relações possuem um peso enorme e muita cobrança. Não reconhecemos mais os gestos do próximo. Clamamos por independência, mas precisamos reconhecer que precisamos do outro, precisamos do brilho nos olhos, de uma afago de vó, do beijo apaixonado, daquela mãozinha pra seguir adiante. Parece que perdemos o tato, o jeito de amar, de compartilhar medos e fazer planos. Parece que as pessoas sentem um certo receio de confiar, de partilhar problemas e reconhecer a necessidade de ter o outro. Já dizia Tom Jobim: fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.

Hoje em dia vivemos em um cruel paradoxo: ou somos cada vez mais emocionalmente dependentes do outro, o que nos prende, nos limita; ou queremos a liberdade de ser, de amar, de ir. O mundo me parece estar em uma constante superficialidade. E ela só cresce. Me pergunto aonde esses amores líquidos nos levarão.

Proponho um regaste aos velhos tempos com o sentimento de liberdade de hoje. Explico. Na época dos nossos avós os sentimentos me pareciam mais intensos e verdadeiros. Não tínhamos a internet e as redes sociais para nos comunicarmos. Era olho no olho, conversas horas a fio na janela. Tudo era muito mais singelo e simples. Hoje parece que complicamos demais as relações humanas de uma maneira que as tornam pesadas. Deveríamos utilizar nossa liberdade não como uma forma de conseguirmos nossa independência a qualquer custo, mas como uma maneira de não estarmos psicologicamente dependentes do outro,

Que amemos muito, verdadeira e intensamente, não tendo receio de embarcar em um voo conjunto, preenchido de mil desafios e planos, mas que saibamos utilizar a nossa independência para termos o nosso próprio voo solo.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Quebra-cabeça

A gente costumava se completar, nós éramos aquele casal meio louco mas que se encaixava de alguma maneira, como as peças de um quebra-cabeça. Uma maneira única e só nossa. Tínhamos uma conexão quase ininteligível, densa, talvez pelo fato de nos conhecermos tanto e há tanto tempo. Hoje eu me pergunto o porquê disso tudo. Talvez lá na frente essa minha visão embaçada me permita ver além, me permita entender. Talvez não. Tudo é tão obscuro na minha mente, tudo parece tão fugaz, tão superficial frente a tudo que vivi. A frieza na pele compensa pelo coração gigante. Talvez você não tivesse percebido isso a tempo. Talvez meus sinais não tenham sido captados na mesma velocidade de antes. Erro meu e seu? Acho que não. Algumas coisas na vida simplesmente acontecem e temos que aceitar. A maturidade talvez me ensine isso. Agora eu sou só sentimento, desafiando a racionalidade capricorniana. Acho que minha ascendência em peixes aflora nessas horas. Essas linhas me parecem um pouco tortuosas. Escrevo talvez para me libertar, não de sentimentos ruins, mas do passado. Acredito que tudo o que vivemos e passamos acontece por algum motivo, que muitas vezes é desconhecido por nós. Não conhecemos as pessoas por acaso. Cada um que cruzamos nos provoca algo e é incrível os laços que podemos criar com eles. Alguns são desfeitos, outros reforçados. Alguns se afastam, outros vem lá do passado para preencher o nosso futuro. Nunca saberemos. Esse é o lado mais bonito e cruel da vida: não saberemos o que se passará. Nesses (des)encontros da vida a gente aprende e evolui. Às vezes procuramos o nosso eu no outro, outras, procuramos o outro em outros corpos. Nunca acharemos. Dói, dói demais acordar e perceber a ausência, a distância, aqueles planos que não se concretizarão que eu construía na cabeça. Você me dizia que eu planejava demais as coisas, e é bem verdade. Fazia planos porque eu acreditava em um futuro compartilhado, talvez você não. Respeito isso, respeito tua liberdade. Talvez você não estivesse mais vivendo do jeito que queria comigo...talvez você precisasse de uma peça nova do quebra-cabeças para se preencher. Hoje eu sou só dúvidas e indagações, tal qual essas linhas. Acho que nem você pode me dar essas respostas. Quem sabe o tempo possa..
Nesse brainstorming interno, vou me jogando nesse mundo com a intensidade de sempre, aprendendo todos os dias, me encontrando e me perdendo de mim mesma para sempre crescer com meus erros. Doloroso é achar que talvez agora falte uma peça importantíssima nesse quebra cabeça da vida, mas que ele será preenchido, em algum momento e será finalmente completo.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Políticas de Drogas no Brasil: problemas e desafios


O Brasil vive um momento histórico em relação à descriminalização das drogas. Estamos diante de um cenário sociológico, jurídico e político-econômico de futuras e profundas transformações. Caso o Supremo Tribunal Federal reconheça a inconstitucionalidade do artigo 28 da lei 11.343 de 2006, a cannabis poderá ser descriminalizada, ou seja, o porte, o consumo e o plantio não serão mais considerados crimes. Atualmente, a norma penal brasileira tutela a despenalização das drogas, o que significa que o porte das substâncias não é passível de pena privativa de liberdade, ou seja, o indivíduo que portá-las será alvo de uma pena alternativa, como medidas socioeducativas e sanções administrativas. Contudo, há ainda um longo caminho para que esse tema seja amplamente discutido e se torne livre de preconceitos e estereótipos cristalizados ao longo do tempo.

Analisando a Lei de drogas de 2006

Com a lei 11.343/06 houve a despenalização do delito da posse de drogas e do cultivo de plantas para uso pessoal. Entretanto, não houve a descriminalização dessas substâncias, ou seja, elas ainda permanecem no rol dos crimes. Atualmente, o indivíduo que portar ou plantar qualquer substância psicoativa poderá sofrer sanções alternativas, como uma advertência sobre os efeitos das drogas; prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo, conforme os incisos do artigo 28 da mesma lei. Esse mecanismo de despenalização acaba ferindo os direitos fundamentais dos usuários, pois, mesmo que não puna com uma pena privativa de liberdade, acaba atingindo o direito de privacidade, de intimidade e de liberdade do indivíduo usufruir do próprio corpo. Sendo assim, acaba restringindo o direito da pessoa de realizar aquilo que lhe der vontade ou que lhe dê prazer. De acordo com o art. 5º, X da Constituição Federal de 1988, o direito à intimidade e à vida privada é inviolável, não podendo, portanto, o governo intervir na vida personalíssima de seus cidadãos.

 O Estado vem, cada vez mais, endurecendo suas políticas, seguindo o modelo histórico estadunidense de guerra às drogas. Isso corrobora para uma polícia militar mais violenta e atroz, que possui a quarta maior população carcerária do mundo . Os cidadãos se encontram em uma militarização da vida; nossa liberdade é cada vez mais cerceada por policiais civis e militares que só aparentam nos garantir segurança. Contudo, a presença dessas autoridades acaba provocando ainda mais mortes nos confrontos com traficantes.

            É necessário apontar que há uma certa seletividade penal dentro dessa perspectiva. O que ocorre é que não há uma definição clara de quem se configura como usuário de drogas e como traficante. Desse modo, o dispositivo penal falhou em esclarecer os limites para estabelecer quem será usuário e quem se enquadrará como traficante. De acordo com o artigo 28, § 1º, fica sob à discricionariedade e subjetividade do juiz distinguir essa caracterização, o que corrobora para injustiças na aplicação e execução das penas. Desse modo, o juiz deverá analisar as circunstâncias do crime; a natureza e quantidade da substância em questão; o local e as condições em que ocorrerão a ação e a conduta e antecedentes do agente.

Essa diferenciação falha ainda contribui para a perpetuação de estereótipos, já que o usuário é visto como doente e o traficante, delinquente. Além disso, corrobora para a construção de um maniqueísmo social dentro da política de drogas, visto que o usuário e o traficante são considerados indivíduos “perigosos”, “criminosos” e “vagabundos”, enquanto que as demais pessoas seriam “saudáveis” e “ordeiras”. Por outro lado, a seletividade penal também ocorre no sentido de determinar quem será punido, ou seja, a maioria dos presos por porte ou tráfico de drogas são negros e pobres. Nesse sentido, essas categorias serão sempre estigmatizadas e marginalizadas pelo meio social.

A desconstrução do modelo repressivo de política de drogas no Brasil e a importância da atuação do STF

            O papel do STF no julgamento da descriminalização torna-se extremamente importante para avançar e popularizar essa discussão na sociedade, que muitas vezes é envolvida por argumentos falaciosos e superficiais. Primeiramente, as drogas sendo proibidas não podem ser regulamentadas, trazendo riscos aos usuários que podem vir a consumir drogas alteradas, já que estas não passam por um controle de qualidade.

            Ainda, muitos estudos começam a apontar que, no caso da maconha, seu uso traz muitos benefícios para a medicina, auxiliando, por exemplo, no tratamento de náuseas provocadas pela quimioterapia do câncer; amenizando dores crônicas e ajudando no tratamento da epilepsia. No entanto, essas pesquisas científicas são limitadas e restritas, pois devido à criminalização da substância não é possível conhecer os seus reais poderes medicinais. É necessário ainda que as pessoas se livrem da visão tradicional e arcaica de que a cannabis é uma substância mais perigosa do que o álcool e o cigarro.

Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, no final de 2013, que investigou o uso de drogas em um universo de 2.400 pessoas, concluiu que 70% dos indivíduos que utilizaram maconha e cocaína o fizeram de modo recreativo, contra 30% das pessoas que afirmaram desenvolver certa dependência. Contudo, comparando o uso da cannabis com o tabaco, a pesquisa demonstrou que 43,1% dos indivíduos que fizeram uso do tabaco apresentaram sintomas de abstinência ao tentar parar, contra 12,7% dos que utilizaram a maconha. Isso afasta o argumento generalista de que a cannabis é uma substância que provoca uma rápida dependência no organismo humano. 

Outro aspecto apurado pela Fundação que é mistificado na sociedade e apoiado massivamente pelos veículos midiáticos é a imagem de degradação pessoal e decadência que a droga transmite aos indivíduos. Sendo assim, a imagem dos usuários de drogas é vista como um reflexo de uma destruição interna da pessoa, como algo totalmente maléfico e errado. Vale ressaltar que um número maior de pessoas acredita que a maconha confere mais perigo do que o tabaco e o álcool, comprovando a desinformação gerada pela mídia à população.

Nesse sentido, o Supremo Tribunal Federal como um Tribunal Constitucional tem o dever de proteger o indivíduo, tutelando todos os seus direitos individuais e fundamentais para garantir a liberdade, a privacidade, a vontade e o direito de cada um dispor livremente de seu corpo. O uso de psicoativos, como a maconha, não atinge o bem jurídico alheio e é protegido pelo dispositivo pautado pelo artigo 21 do Código Civil de 2002: “A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma”. Assim, é imprescindível que o Supremo atue de forma segura e precisa para julgar uma das pautas mais delicadas e polêmicas do cenário político-econômico atual que envolve interesses capitalistas, bancadas religiosas e discursos médico-sanitários.
Propostas de políticas públicas

            Se o STF votar pela descriminalização das drogas será necessário que o governo articule políticas que regulem e controlem o uso, porte e plantio dessas substâncias. Esse processo deve ser lento e gradual, de modo que a sociedade possa se adaptar a esse novo rol de substâncias e para que políticos e autoridades, contrárias a etapas mais radicais como a legalização, não criem barreiras impeditivas.

            Um modelo inovador que pode servir de inspiração para o Brasil é o do Uruguai que oficializou a produção e o consumo da maconha para uso recreativo. O cultivo caseiro limita-se a 6 pés de maconha por pessoa registrada e o coletivo, em clubes canábicos, a 99 pés, tendo no máximo 45 sócios maiores de idade. Com essa política, o Uruguai está conseguindo formar um mercado da maconha que impulsiona a geração de empregos e o recolhimento de impostos, podendo controlar e acompanhar o consumo dessa substância. O estado do Colorado, por exemplo, que legalizou a cannabis arrecadou tantos impostos que atualmente discute a possibilidade de repasse à população.

O Brasil deve olhar para essas políticas como um espelho que, se bem articulado, pode melhorar e ajudar a reformar o modelo punitivo e cruel do nosso direito penal. É necessário refletir e frear nossa visão arcaica e ultrapassada de que a violência e repressão se configuram como um mal necessário para a redução do consumo das drogas. Na prática, o efeito é reverso e só traz malefícios aos usuários, tanto recreativos como dependentes. Nossos governantes precisam formular políticas de redução de danos para esses usuários, no intuito de protegê-los e resguardar seu direito de consumir essas substâncias.

            Para isso, o Ministério da Saúde poderia fazer uma grande campanha de prevenção e controle do consumo dessas substâncias, como forma de alertar à população seus benefícios e malefícios. Além disso, poderiam ser construídos dentro das UPA’s espaços especializados ao atendimento de pessoas dependentes, como ainda poderia ser criada uma rede de hospitais públicos já existentes que fossem responsáveis por atender casos emergenciais, servindo como uma clínica de contenção da dependência.

          Com a descriminalização do consumo, porte e cultivo das drogas, a máquina lucrativa do tráfico, que envolve muitas milícias e políticos corruptos sofreria um duro golpe, passando o governo a arrecadar boa parte do lucro com a produção e distribuição dessas substâncias. É preciso olhar além e problematizar essa questão polêmica, que deve ser despida de estereótipos e preconceitos por toda a sociedade. As drogas não são um problema. A sua criminalização, sim.
 

sábado, 21 de março de 2015

(Des)encontro

Nos conhecemos numa festa onde ninguém acha que vá encontrar um grande amor. Não sei. A química foi tanta, o beijo foi tão intenso que dormimos juntos e acordamos fazendo juras de amor. E nesse vai e vem entre os lençóis, descobri cada pedacinho teu. Percorri cada centímetro teu, descobrindo seu lado doce, sensual, de menina e de mulher. Sua vergonha me instigava a te provar e a te descobrir mais e mais. Teu perfume doce exalava no travesseiro, na cama, em mim. Teu cheiro me seduzia demais, o que me deixava mais louco pra te beijar. Seu sorriso me encantava, me despertava, me fazia sonhar. E em seu peito encontrava um porto seguro que me envolvia com a sua pele macia. Seus lábios tão rosados e tão perfeitamente moldados em teu rosto combinavam sutilmente com teus olhos amendoados que me olhavam tímida, singela, como se um anjo. Mas teu corpo estava em brasa, ardendo pelo meu toque, pelo meu carinho, pelo meu amor. E nessa descoberta acabei descobrindo um pouquinho mais de mim, do sentimento que podia guardar no peito por alguém que conhecera apenas algumas horas atras. A vontade de ficar ao teu lado era gigantesca. Passaria horas, dias ali, te admirando, te acariciando, te amando por qualquer tempo que fosse...mas o dia logo logo nasceria e a despedida seria inevitável, o adeus seria eminente.

sexta-feira, 6 de março de 2015

All you need is a little faith, trust, and pixie dust.

Trabalhei na maior empresa de entretenimento do mundo durante quase 3 meses. Fui Quick Service Food and Beverage no famoso e turístico All- Star Movies. O trabalho de Quick consistia basicamente em atender os guests nos mini-shops do Food-Court do resort. O World Food Premiere, como era chamado a área dos restaurantes do Movies, era composto de 5 shops: Majestic (especializado em massas e pizza), Lyric (que servia pratos quentes, como frango, steak e saladas), Roxy (que servia cachorros-quentes e hambúrgueres), Rialto (onde tinha sorvetes, brownies, enfim sobremesas no geral) e Grand-Market (um mini mercado que vendia desde leite e pães até remédios e cerveja). Os cast members podiam rodar esses shops, ficar na dining room (limpando as mesas) ou ainda ficar no trash (recolhendo lixo dos restaurantes). Eu fui treinada pela manhã, basicamente de madrugada (começando às 4-5 horas), mas acabei trabalhando a noite, fechando os restaurantes. Meu horários começavam mais ou menos entre 16hs e 18hs e terminavam 01hs.
 O trabalho era bem pesado...exaustivo, diria. Passávamos facilmente, 9hs, 10hs em pé. O All-Star me exigia muito, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Precisávamos sorrir o tempo todo e sempre parecer animados e felizes. A Disney tem um alto padrão de qualidade de serviço, tendo como lema "We create happiness". Então, os cast members precisavam sempre superar as expectativas dos guests, fornecendo o melhor serviço que eles pudessem oferecer. A Disney, quando treina seus cast members, enfatiza muito as 4 palavras-chaves (4 keys) para garantir um serviço de excelência para todos os seus visitantes. São elas: safety (segurança, que é a mais importante de todas), efficiency (eficiência), courtesy (cortesia, cordialidade) e show (fazer do seu trabalho parte de um show, parte da magia, do espetáculo). Assim, precisávamos cumprir com todas essas palavras chaves para realizar um serviço de excelência.
Eu diria que o ICP, como é chamado o college program para estrangeiros,  não é para qualquer pessoa. Na verdade, você precisa estar preparado para tudo, porque você vai ser praticamente um escravo lá. A Disney paga o salário mínimo permitido por lei, não nos dando auxílio transporte nem auxílio refeição. Precisamos pagar o nosso housing (apartamento) que, na minha opinião, é caríssimo. Eu morava no Vista Way, com mais 3 meninas (melhores roomies da minha vida: Yasmin e Raíssa) e pagava 98 dólares semanais que incluía ainda o ônibus que nos levava para todos os lugares do complexo Disney. Qualquer local fora do complexo, o Transtar, nome da linha exclusiva do bus, não operava. Também precisávamos pagar para lavar nossas roupas. Tinha uma lavanderia embaixo de cada prédio do Vista. Era U$$ 1,50 para lavar e mais U$$ 1,50 para passar. Apesar de caro, eu AMEI morar no Vista. Apesar de ser o mais afastado dos outros condomínios, o Vista era próximo de vários restaurantes e supermercados, como o Wallgreens, Seven Eleven (melhor pizza giga de 5 dólares da minha vida), Cici's (um all you can eat de pizza, massas e saladas por 4 dólares. Sim, QUATRO dólares haha), o Applebee's e o Dollar Tree (um supermercado onde tudo lá custa 1 dolar). Era no Vista também que rolavam a maioria das festas. Eu sempre gostei muito de festas, então aproveitei bastante as after e house parties de lá.
Apesar da minha relação de amor e ódio com a minha work location, eu sinto muita falta dos momentos que passei lá e dos melhores coworkers que eu poderia ter. O mais mágico desse programa são as pessoas que você conhece. Fiz amigos que com certeza levarei para a vida inteira. O ICP é um programa intenso demais, então você acaba se apegando muito a todos. Você embarca numa realidade nova, com uma rotina diferente. E aí, quando você começa a se acostumar, já é hora de dizer adeus. Uma das melhores coisas que o ICP proporciona é a sensação de que cada dia você pode ter uma surpresa diferente. Apesar de termos uma rotina, a cada dia atendíamos pessoas diferentes, muitas vezes em posições distintas de trabalho. E é sempre uma surpresa. As vezes até o guest poderia começar uma conversa ou ainda poderíamos proporcionar diversos magical moments. E quando atendia brasileiros que me diziam: "ah, que bom que você fala português!" eu me sentia acolhida, feliz por estar ali ajudando.
Como eu havia dito antes: trabalhar na Disney não é nada fácil. É um trabalho super explorador, que te exige muito e que provavelmente você não se submeteria aqui no Brasil, mas a vivência que esse programa te proporciona é gigantesca. Já chorei, pedindo colo e querendo voltar para casa, mas segui firme e não me arrependo nenhum pouco das noites mal dormidas, das dores e formigamento nas pernas, de ficar em pé sorrindo o tempo todo quando se está exausta....enfim, acredito que CADA segundo ali valeu muito a pena. Apesar de tudo isso, a Disney também envolve seus cast members na magia. Voltei a ser aquela garotinha de 11 anos (idade em que fui pela primeira vez nos parques) quando vi o Mickey pela primeira vez quando cheguei em Orlando, ou quando vi meu último wishes com todos os meus amigos. A Disney também me ensinou que o sorriso é uma arma poderosa e e que ele pode mudar totalmente o dia de alguém. Aprendi a morar sozinha, a praticamente me sustentar em um país diferente e a lidar com uma pressão gigante em um ambiente de trabalho. A Disney tanto me fez voltar a ser menina, como também me engrandeceu como mulher e sou eternamente grata a tudo o que eu vivi nesses quase 3 meses, especialmente ao mais querido, fofinho e amado boss que já tive, afinal, nada seria da Disney sem ele!

"I hope that we don't lose sight of one thing - that it was all started by a mouse"
Walt Disney

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Não se avexe, não

É muito, muito estranho quando a toda a sua vida muda em um instante e não dá tempo de processar todas as transformações. As pessoas costumam ter medo do novo, de recomeçar, de seguir um outro caminho e realmente, é um desafio se reinventar e fazer diferente. É triste e dói demais ter que tentar colocar de lado momentos incríveis compartilhados, mas é impossível apagá-los do coração. É difícil aceitar o fato de que nada é para sempre e isso, ao mesmo tempo, é uma coisa positiva, porque nada é definitivo também. A vida é um vai e vem de pessoas, lugares e momentos, mas o mais sensacional nisso tudo é que a ela é cheia de mudanças, tanto boas quanto ruins e que afetam as pessoas, todos os dias. A mudança é necessária para todos, é o que nos faz crescer, melhorar para nós mesmos, é o que nos faz seguir em frente, é o que nos alerta e é que nos motiva, dando uma forcinha extra nos momentos difíceis. Não podemos voltar atrás, mas podemos olhar o passado com ternura, com saudade e fazer dele um instrumento para que o hoje seja ainda melhor. O futuro? Ah, o futuro é incerto, brinca de fazer mistério com a gente, nos provoca com planos e expectativas e nos apressa, querendo que ele chegue logo nas nossas vidas. Mas, como dizia o sábio Chico Buarque: “Não se afobe, não. Que nada é pra já.”